domingo, 1 de novembro de 2009

Sí, pero no mucho.

A imprensa vive de notícias “catastróficas“.  Sem aquelas notícias fortes e emblemáticas a imprensa não viveria. Os noticiários políticos, em particular, cheio dos tão comuns escândalos que logo são substituídos por outros tão recorrentes quanto, logo que têm a oportunidade de tratar de um assunto-catástrofe não perde a chance. Ainda sem largar a Crise em Honduras, aproveitando a grande maré de novidades internacionais, o assunto da semana foi a aprovação do Senado ao ingresso da Venezuela ao MERCOSUL.

Nesse momento não quero entrar no mérito se é bom ou ruim, entretanto, lembro a vocês, campeões, que Hugos Chaves passarão, mas a Venezuela continuará uma tremenda parceira econômica por um bom tempo. Eu fico me perguntando por que a imprensa não se questiona sobre o que o Brasil, na verdade, quer com o MERCOSUL.

Desde o Trato de Assunção, fundador do MERCOSUL, que entrou em vigor no final de novembro de 2009, essa sigla permanece uma incógnita. O bloco, que fará 20 anos em 2011 pouco avançou nesse período e sua proposta não foi consolidada.

A intenção é realmente muito interessante. Um mercado comum que promoveria uma maior integração entre os seus membros, facilitando o fluxo de mercadorias e capitais. Primeiro se consolidou uma zona de livre comércio que, posteriormente, evoluiu para uma união aduaneira, ou seja, os países teriam uma mesma tarifa externa comum para os mesmos produtos. O momento político do início das conversas, ainda no Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento com a Argentina, era mais propício ainda, pois mostrava uma união dos dois governos democráticos, na época os governos de Sarney e Alfonsín, em uma vontade mútua de desenvolvimento regional.

Mas o que prometia ser uma grande evolução para os mercados dos países membros acabou perdendo a força. Os analistas afirmam que muito disso vem da assimetria (econômica, primordialmente) entre os países, ou da fragilidade institucional e a falta de articulação em prol de avanços mais concretos. Há ainda a constante “sensação de patinho feio” que Paraguai e Uruguai sentem com as relações bilaterais entre Brasil e Argentina. Mas é em um princípio básico que o MERCOSUL vê seu maior problema.

            O aspecto soberano de cada país ainda prevalece sobre o MERCOSUL. Os objetivos diplomáticos de cada país – ambos bem diferentes do que a tradição nacional manda - seguem caminhos bem distintos. Enquanto o Brasil tenta consolidar sua liderança em todo o continente, a Argentina tenta fortalecer suas relações com vizinhos próximos, principalmente o Chile. O Paraguai faz uma revisão de sua política externa, após mais de meio século sobre o comando do mesmo partido. O Uruguai, que escolhe seu presidente nesse momento, questiona as assimetrias regionais no bloco, e deve seguir com sua tradicional política externa. São focos divergentes que dificultam o processo de integração.

            O MERCOSUL permanece lento em sua consolidação e fraco em suas propostas. Em 2010 existia a proposta de se eleger um parlamento para o MERCOSUL de deputados exclusivos, via eleição direta, mas a falta de ações políticas conjuntas e burocracias eleitorais complicaram essa ação, fora o questionamento sobre o que esse parlamento faria e sob o que ele regularia. A entrada da Venezuela coloca mais fatores na discussão, que agora pode chegar até ao nível fundamental, já que o debate sobre a Venezuela quebrar a cláusula democrática do bloco já arrecada vozes.

            O foco não é se a Venezuela será uma boa parceira, se o temperamento de Chaves prejudicará a imagem do bloco. O foco deveria ser o questionamento do que realmente se quer com o MERCOSUL para fazer com que a bela bandeira na frente do Itamaraty signifique alguma coisa.

Campeões, que saudade!